Homenagens a Sonia Dietrich e ao Leopoldo Magno Coutinho

SONIA DIETRICH

Sonia

Em 10 de agosto de 2012 faleceu a nossa saudosa Sonia Dietrich. Marcos S. Buckeridge e Márcia R. Braga, dois de seus discípulos, e membros da SBSP elaboraram o obituário de Sonia Dietrich, que foi publicado no fascículo 3 do volume 35 de 2012 da BrazJBot. Nessa lembrança emotiva narram, com muita sensibilidade, a pessoa especial que foi nossa saudosa colega e amiga, dedicada intensamente ao trabalho em prol da Botânica e na formação de botânicos no Brasil e na América Latina. Ela foi uma colega sempre ativa, motivada, comprometida e agradável, com uma inteligência sensível e amizade delicada. Nos últimos anos Sonia liderou a tarefa de revitalizar a SBSP e em particular a BrazJBot. A assinatura do contrato com a Editora Springer, na condição de Presidente da SBSP e Editora-Chefe da BrazJBot, junto com o Vice-Presidente Prof. Carlos Martinez, foi uma das últimas ações da Sonia, antes de seu falecimento sensível.

LEOPOLDO MAGNO COUTINHO (1934-2016)

Leopoldo

Nascido em Franca, estado de São Paulo, ali passou a infância e iniciou os estudos no Colégio Champagnat. Veio para São Paulo aos 17 anos, a fim de terminar o curso secundário e preparar-se para o ingresso na universidade. Desde criança, o Leo (como preferia ser chamado pelos colegas, amigos e alunos) demonstrou interesse pela natureza. A opção pelo curso de História Natural na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo foi uma escolha natural, da qual nunca se arrependeu. Ainda no primeiro ano de faculdade (1953) estagiou no Instituto Butantan, no laboratório de microscopia eletrônica. Logo percebeu ter mais afinidade com a Botânica. Estagiou então por dois anos com a Profa. Dra. Mercedes Rachid-Edwards e em 1955, com ela e outros colaboradores, foi coautor do primeiro trabalho realizado no Brasil utilizando microscopia eletrônica em plantas. Ainda estudante, foi Auxiliar Técnico de Laboratório do Departamento de Botânica e depois de formado, em 1957, foi contratado como um dos assistentes do Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri, catedrático do Departamento de Botânica. Com o Dr. Ferri, iniciou seus estudos em ecologia dos cerrados. À época de escolher o tema de seu doutorado, enfrentou um desafio imposto pelo Dr. Ferri: estudar o ecossistema da Mata Atlântica, um ambiente totalmente diferente do cerrado. Estudou o balanço hídrico de várias espécies na Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba, SP, e fez uma descoberta importante para a ciência: algumas bromeliáceas e orquidáceas da Mata Atlântica assimilavam CO2 à noite, isto é, apresentavam metabolismo CAM (Crassulacean Acid Metabolism), descrito até então apenas em plantas suculentas de deserto, resistentes à seca. Demonstrou, assim, que a suculência não é condição indispensável para ocorrer esse tipo de metabolismo. Terminado o doutorado, passou um ano em Stuttgart, Alemanha, sob a orientação do Prof. Dr. Heinrich Walter, ecólogo de renome internacional. Com a reforma curricular do curso de Biologia da USP, em 1964, foi criada a disciplina de Ecologia Vegetal, que passou a ser ministrada pelo Prof. Leo, com o auxílio de outros docentes. O Prof. Leo acreditava firmemente que as experiências vivenciadas pelos alunos no campo eram tão ou mais importantes do que o aprendizado em sala de aula. Dessa forma, além de aulas teóricas e práticas, havia três excursões obrigatórias para os alunos: mata atlântica, cerrado e dunas/restinga. Foi após uma dessas excursões com alunos, em 1969, que ao chegarem ao cerrado depararam com um fato inesperado. A área havia sido queimada há alguns dias, o que inviabilizaria parte dos trabalhos de campo. Professor experiente, aproveitou esse incidente para mostrar aos alunos as diversas adaptações das plantas de cerrado ao fogo, dentre elas a floração sincronizada de várias espécies. O papel ecológico das queimadas na floração de espécies do cerrado foi o tema de sua tese de Livre-Docência e deu início a uma nova linha de pesquisa no Departamento de Ecologia da USP: os efeitos do fogo no cerrado. Foram vários anos de trabalho e observações de campo, e hoje é considerado a maior autoridade brasileira sobre os efeitos das queimadas na vegetação do cerrado e defensor da ideia de que o manejo do fogo no cerrado é necessário para a manutenção desse bioma, com sua fauna e flora. Em 1977, foi convidado a criar e estruturar o Departamento de Ecologia da UNESP, no campus de Rio Claro, embrião do atual curso de graduação em Ecologia daquela universidade. As participações em reuniões científicas no Brasil e no exterior levaram-no a conhecer diferentes áreas naturais, tais como desertos e savanas da África, a floresta de faias, os páramos venezuelanos, a caatinga, a floresta amazônica. Participava com igual entusiasmo de reuniões no Senado Federal ou nas Semanas de Biologia, organizadas por alunos, em várias regiões do Brasil, sempre cativando a audiência com seu jeito simples, suas posições firmes, seu domínio do assunto. Professor exigente com seus alunos, tinha excelente didática, suas aulas eram bem ilustradas, instigantes, e estava sempre pronto a responder as perguntas que lhe eram dirigidas. Ao longo de 35 anos como professor, teve milhares de alunos e influenciou muitos deles a seguirem seus passos no campo da Ecologia. Quando se aposentou da USP, em 1987, continuou por alguns anos a oferecer disciplinas na pós-graduação, uma das quais, muito concorrida, no Parque Nacional das Emas, em Goiás, e a ministrar um curso de difusão cultural, aberto ao público em geral, sobre a ecologia dos principais biomas brasileiros. Orientou dissertações e teses de doutorado, participou de inúmeras bancas de defesa de tese e de contratação de professores, e foi membro do comitê assessor do CNPq. Publicou mais de 50 trabalhos científicos, diversos artigos de divulgação, um site sobre o Bioma Cerrado (www.eco.usp.br/cerrado), um livro didático sobre Botânica voltado para o ensino médio, e deixou um livro inédito “Os principais biomas no Brasil”, escrito no último ano de sua vida, com a intenção de esclarecer estudantes e o público em geral sobre o conceito internacional de bioma, hoje tão banalizado pela mídia. O que melhor o caracterizava? Como profissional, era difícil separar o pesquisador do professor. Sua contribuição para a Ecologia é inquestionável. Gostava de ensinar e tinha um talento especial para isso. Ir para o campo com ele era uma experiência inesquecível e enriquecedora. Tímido, de poucas palavras, gostava de contar histórias de sua infância em Franca; chegava facilmente às lágrimas quando ouvia uma bela música ou um bom intérprete, mas sempre se divertia com uma boa piada. Foi um naturalista nato: amava a natureza, especialmente as plantas e pássaros, cujo canto gostava de ouvir e imitar. Certa vez mencionou nunca ter trabalhado na vida, pois para ele o trabalho foi sempre uma grande diversão. 

Lilian B. P. Zaidan